Há alguns anos atrás, Portugal teve um primeiro-ministro (agora reciclado e transformado em Presidente de República, tal como o próprio diz, entre duas fatias de bolo rei) que aos sete ventos afirmava: “Raramente me engano e nunca tenho dúvidas!”. Se é certo que há bastantes características separam a minha pessoa da de Cavaco Silva, também é certo que há pontos em comum. Eu próprio sou um homem (hummmm… rapazola vá!…) de certezas e também eu nunca tenho dúvidas. Mesmo quando erro (acontece muitas vezes, ao contrário do presidente de todos nós, e ainda bem, digo eu!), erro sem margem para dúvidas. E esta característica trago-a desde o berço e parece-me que me irá acompanhar até à cova, por mais desconfortável que seja esta minha característica (nunca experimentei a cova, mas parece-me que também será desconfortável… palpite).
Certo dia, nos tempos em que eu ainda era um puto desdentado, levei para a escola um pão com Tulicreme de avelã (foi desde sempre o meu favorito. De tal modo favorito que me a Tulicreme me ofereceu uma mochila bem catita, com o Tuli estampado e tudo). Chegada a hora de comer a merenda, eu dirigi-me diligentemente para a zona onde tinha guardado o meu mais que espetacular pão com Tulicreme. Uma vez lá chegado, reparei que ele não estava lá. Como poderia ser? Eu tinha a certeza que o tinha levado e o tinha deixado lá. Alguém mo havia roubado. “Sacana” pensei eu. Mas isto não podia ficar assim. Eu tinha de descobrir quem me tinha roubado. E quem me tinha roubado tinha que ter lá o meu pão com Tulicreme para comer durante a merenda. Chamei a professora e disse-lhe que tinha sido roubado e isso dava-me o direito de inspeccionar a merenda de todos os meus colegas e verificar se haveria alguém com um pão com Tulicreme de avelã. Inacreditavelmente não havia ninguém que tivesse uma merenda que preenchesse tais requisitos. “Sacana” pensei eu. Isto não vai ficar assim. Gritei para os meus colegas – em jeito de ameaça – que o meu pão tinha que aparecer. E quem o tinha feito desaparecer teria de se haver comigo. Foi aí que a professora achou que esta situação teria ido longe demais e disse-me para me acalmar: “Quando chegares a casa a tua mãe dá-te outro pão com Tulicreme”. Eu, fora de mim, vociferei as palavras que o tempo não apaga: “Pois… E a minha mãe é alguma padeira para ter lá tantos pães!”. A professora, já em desespero de causa e achando que eu iria iniciar ali um golpe de estado, chamou a minha mãe à escola para me levar para casa. Chegando a casa, já mais calmo, olhei para a mesa da cozinha e lá estava o meu pão com Tulicreme. Como teria sido possível? A única hipótese que consigo apontar é que o sacana que me roubou o pão também tinha conseguido entrar em minha casa. Sim, porque eu nunca tenho dúvidas. E eu tenho a certeza (ainda hoje) que levei o pão para a escola.