Alguns dias atrás assisti pela primeira vez ao processo através do qual é transformado o bagaço em aguardente. Este processo é uma espécie de metamorfose, em que a larva (o bagaço) se transforma numa bela borboleta (a aguardente) de 21º – tal como mandam as regras. O processo é em si bastante interessante e os apetrechos que permitem essa transformação são também eles interessantes. Mas nada disso bate o aroma do alambique. Realmente espetacular.
Enquanto lá estive armei-me em abelhudo e chateei o alambiqueiro (esta palavra é provavelmente um neologismo) para que este me explicasse todo o processo. Fiquei a saber bastante sobre o processo em si, mas o que o alambiqueiro não me explicou foi os usos que se poderão dar à aguardente. Começando pelos mais comezinhos, podemos por exemplo beber a aguardente, pegar-lhe fogo e assar lá um chouriço, sendo que os usos da aguardente não se ficam por aqui. Como toda a gente sabe, Telhadela sempre foi um lugar de reconhecida vanguarda no uso da aguardente – há até estudos da União Eupoeia que documentam que Telhadela está em vigésimo sétimo lugar a nível europeu no que toca ao avanço tecnológico no domínio da aguardente. Porém estes estudos talvez não devam ser levados a sério, uma vez que foram elaborados por apreciadores de aguardente depois de um dia de provas.
Têm dúvidas do que acabo de afirmar? Então conto-vos uma história que considero paradigmática.
Certo dia, certo sujeito estava a construir um certo muro de pedra, quanto ao dar uma certa marretada numa certa pedra de uma certa maneira, esta certa pedra parte-se, sendo que uma certa pequena pedra entrou para um certo olho (um daqueles alojados na cabeça…). Este certo sujeito, depois de certas esfregadelas para tentar remover a certa pedra, desistiu, esperando que ao chegar a sua casa a sua certa esposa lhe removesse a certa pedra do certo olho. A chegar à sua certa casa informa a sua certa esposa, que de imediato se dirige à garrafa da aguardente e abeirando-se do certo sujeito, lhe diz: “Lavanta!”, que é como que diz abre o certo olho que tem a certa pedra. O certo sujeito assim faz, e então a sua certa esposa põe a garrafa à boca, bocheca um pouco e “Bbbbrrrrr…” atira-lhe para o certo olho ferido uma baforada de aguardente. Não sei se esta senhora removeu a pedra do olho do seu marido, o que eu sei é que ele certamente esqueceu a dor causada pela pedra. Essa dor foi substituída por uma muito maior devida ao nada natural encontro imediato entre aguardente e um olho ferido.
