A inquietação que hoje vos trago não é directamente o Jaimão, figura bastante pitoresca (no mínimo pitoresca…) e com vários méritos reconhecidos na nossa praça. Este indivíduo é um reputado cantor e compositor, autor de uma irreverente e pornográfica versão da canção infantil “Abelha Maia” de Tozé Brito, esse grande mito vivo da canção em Portugal. Para além disso tem originais como “Quinzinho, o chulo”, mas que era mais conhecido como “o microondas, porque outros comiam o que ele aquecia”, canção esta que foi usada com bastante propriedade na banda sonora original de um dos maiores filmes portugueses dos últimos tempos: “Balas e Bolinhos: o regresso”.
Mas o que me inquieta também não são estas canções em si, mas a disparidade entre as já citadas e as demais canções pertencentes ao repertório artístico do Jaimão e esta em particular. A inquietação advém do facto de esta canção não tratar das habituais conas, fodas e idas ao cu, que são a regra nas canções do Jaimão. Mas como não há regra sem excepção, esta é, concerteza, uma valente excepção. A canção de que falo é: “Que bom sou louco” e reza assim:
Quando todos pensam que um carro não voa
Eu levanto vinte metros acima do chão
Quando toda a gente pensa que dois e dois são quatro
Eu juro que são cinco e tenho razão
E quando os alunos seguem o que o professor diz
E eu faço exactamente o contrário e sou muito mais feliz
Quando vocês passam em frente ao hospital
E lá dentro estou eu como doente mental
Sou loucoMas que bom, sou tão louco
Quando vocês se levantam cedo para trabalhar
E chamam nomes à vida só por chamar
Quem é louco sou eu que levanto quando quero
Não aturo ninguém nem parto da estaca zero
E quando alguns pensam que já são alguém
Só porque andam de Mercedes e moram em Belém
Eu tenho três ferraris, dez casas e um avião
Que flutuam livremente na minha imaginação
Esta canção é muito bem escrita e parece-me que até poderia estar contida num qualquer compêndio da disciplina de português. Há lá coisas bem mais deslocadas que esta sentida poesia.
