No passado dia 26 cumpriram-se 19 anos sobre o falecimento de Carlos Paião. É assim que deverá estar depois destes anos todos.
Acho que que a história foi muito injusta para com ele. Foi um dos compositores portugueses mais prolíficos, sendo grande parte das suas composições muito boa. Escrevia sobre absolutamente tudo deste mãos a combóios, nunca caindo na facilidade de escrever sobre amores perdidos ou sonhos de meninos, sendo que aparentemente tudo lhe saía bem. Compunha com alegria sobre a alegria. Paradigma dessa alegria é a minha canção favorita dele, cantada a meias com Herman José:
“Prás sogras que encontrei na vida”
Prás sogras que encontrei na vida
Atrás da sua filha querida
Cá do meu coração
Dedico esta canção
Às sogras que aturei na vida
As sogras que na vida tive
Não sei se alguma sobrevive
Aquela em que bati
A outra em que mordi
Eram piores que Deus me livre
As ricas sogras que a mim calharam
Deram-me um galo que eu sei lá
Foram as sobras que prái restaram
Das boas sogras que acho que ainda há
Ter uma sogra sempre ao lado
É bem pior que ser multado
Tive uma que acordava
De noite então gritava
Mais surda que um pneu furado
Prás sogras nunca fui bem vindo
Dizem que eu sou um ganda índio
Uma até fez macumba
E outra catrapumba
Partiu-me o meu nariz sorrindo
Quantas pessoas tem uma família
E a sogra logo é a mãe delas
Se ao menos fossem peça de mobília
Iam fora pela janela
Deram-me cabo das finanças
Gozavam com as minhas tranças
Mandavam-me prá tropa
Punham moscas na sopa
Nem falavam sobre heranças
Mas pra que é que as noivas trazem mãe?
Defeitos já a filha tem
Mas um dia hás-de ver
Que a filha ainda vai ser
Tão sogra como a mãe
Se é verdade o mito que a justiça tarda mas não falha, Carlos Paião será concerteza elevado a ícone da música portuguesa que é esse afinal o seu lugar por direito próprio.
É nestas alturas que tenho vontade de acreditar no princípio budista da permanência das almas na vida terrena. O mundo com a alma de Carlos Paião será concerteza um mundo mais feliz, nem que essa alma esteja alojada no corpo dum verme.
