Por alguma razão que eu nunca entenderei, parece que toda a gente em Telhadela é um caçador em potência. E porquê em potência? Em potência porque a maior parte da malta de Telhadela não se dedica realmente a essa arte milenar que é a caça. Uma caça que é realmente muito velha. Não é por acaso que por vezes se diz que algo é tão velho como o caçar (ou será cagar? Nunca sei…) para se referir a algo mesmo muito velho.
Em Telhadela, estes caçadores podem ser designados como “em potência”, porque apenas se limitam a ter uma caçadeira em casa. Mesmo alguns objectores de consciência têm destas armas em casa. E usam-nas. O que me parece algo de realmente estranho.
E qual é o dia em que todas estas caçadeiras veêm a luz do dia?… Ou melhor a luz da noite? Qual é? Qual é? Por esta altura já está o meu caro leitor pulando na sua confortável cadeira gritando: “Esta eu sei! As caçadeiras saem todas à rua no dia 31 de Dezembro. Mesmo na altura das 12 badaladas”. E neste caso, por maior que seja a minha vontade de dizer que o meu caro leitor não é assim muito inteligente (o que me parece uma conclusão óbvia, já que caso fosse inteligente não seria certamente meu leitor…), terei de dizer que o meu prezado leitor acertou em cheio.
E porque é que todas estas armas se ouvem troar no último dia do ano? Não sei. Parece-me que afinal o nosso Conquistador Henriques não fez um trabalho competente. Ainda há réstias de mulçulmanos em Telhadela, algo que pode ser claramente confirmado pela vontade de festejar algo com tiros para o ar. Parece que afinal nem tudo nos separa dos muçulmanos como eu havia – erradamente - dito ontem.
Chamo neste ponto atenção do meu ilustre leitor que a mistura entre bebidas alcoólicas em excesso e armas de fogo é um substrato bastante promissor para fazer aí germinar bonitas histórias de idiotice em estado puro.
O problema dos tiros para o ar na rua em frente a casa durante a noite de passagem de ano é que não há grande coisa para testar a pontaria. Não havendo cabos das forças armadas há que apontar para os cabos eléctricos. E não é que por vezes estes fogachos acertam em cheio? O que parece paradoxal, uma vez que o atirador têm de estar bastante bêbado para ser pôr a disparar para cabos eléctricos, mas ao acertar prova que afinal não está assim tão bêbado.
Hoje Telhadela acordou sem energia eléctrica, o que vem acrescentar um novo ponto que poderá resolver o paradoxo:
- o atirador está muito bêbado e põe-se a atirar para os cabos de electricidade;
- o atirador não está assim tão bêbado, já que acerta nos cabos;
- o atirador afinal estava mesmo muito bêbado, já que se enganou no dia. Estourou os cabos com dois dias de atraso.
Oh David! Deixa-te disso homem!

Quem acertou no cabo não o fez por querer, o que aconteceu foi que a caçadeira, devido à conservação do momento linear (explicando por outras palavras : a puta da arma fez muita força para trás), se levantou mais do que seria de considerar normal, e consequentemente o chumbo foi acertar em cheio no cabo eléctrico.
Comentário por Calisto — Janeiro 3, 2008 @ 9:42 pm
Bom dia
Concordo perfeitamente contigo na comparação que fizeste sobre os resquicios da influência Árabe que existem nas nossas comunidades. Não é só nos nomes das povoações nem na leitura dos jornais do fim para o principio.
Infelizmente, por vezes, estas coisas correm mal e somadas ao excesso de alcool e às dificuldades visuais levam ao que aconteceu em diversos pontos.
E não vão mudar tão cedo estas mentalidades….
Comentário por EuTambemOuviPum — Janeiro 4, 2008 @ 11:39 am
Meus caros comentadores,
Antes de mais espero que tenham tido todos umas festas magníficas.
Depois, um comentário a cada um dos vossos comentários:
– os meus mais sinceros parabéns ao caro amigo EuTambemOuviPum pela originalidade dos nomes que sempre escolhe para me comentar. São sempre bastante originais e desta vez provocou-me uma gargalhada autêntica. E toda a gente sabe o valor das gargalhadas autênticas (na verdade nem toda a gente sabe… mas deviam! é algo que deve saber-se!);
– com o devido respeito, meu caro Calisto, acho que deveria ter estado mais atento às suas aulas de Física. A teoria da conservação do momento linear explica apenas o recuo da arma na mesma direcção que esta está apontada, daí que a conservação seja chamada de “linear”. Assim, se é verdade que a arma recua devido ao impulso dado à bala, também é verdade que recua no exacto momento em que é feito o disparo e é também verdade que recua exactamente na mesma direcção que a arma estava apontada. Como conclusão, e pela teoria da conservação do momento linear, a arma estava apontada aos cabos eléctricos no momento exacto do disparo.
Cumprimentos amistosos,
PistonCzar
Comentário por pistonczar — Janeiro 4, 2008 @ 12:18 pm
Boa tarde.
Caro Pistonczar,
Dicordoo da tua explicação sobre a teoria da conservação do momento linear. Na minha opinião:
- o que se aprende em Física é válido para um corpo rígido, onde a teoria se aplica ao centro de gravidade. No caso de corpos compostos por vários elementos, ainda por cima móveis, onde o centro de gravidade muda de posição em qualquer altura, a teoria também se aplica no centro de gravidade. Acontece que a bala apresenta-se excêntrica em relação ao centro de gravidade, assim como o seu movimento que após o choque também é excêntrico em relação ao centro de gravidade. Assim gera-se um momento flector (força x excentricidade da bala) que pode provocar a rotação da arma;
- o facto de ser linear, não significa uma recta. Significa que é de 1ª ordem. Pensa no caso duma granada que explode em múltiplas direcções;
- em suma, acho que devias aplicar os princípio da conservação da quantidade de movimento e o princípio de conservação do momento cinético, que explica o que referi atrás.
Resumindo, é possível que o David não estivesse a apontar para os cabos da electricidade.
Cumprimentos,
Um leitor não muito inteligente
Comentário por Leitor — Janeiro 4, 2008 @ 3:41 pm
Antes de mais congratulo-me por finalmente ter conseguido com que este meu caro amigo me comentasse. Foi preciso chegarmos à Física Clássica
.
É verdade que leventaste importantes considerandos de ordem Física, mas esqueceste-te de uma consideração bastante mais simples. O que não quer dizer que não seja de extrema importância. O que o Leitor se esqueceu foi que uma arma é feita para disparar na direcção para a qual está apontada. Convenhamos que uma arma que não dispara na direcção para a qual está apontada não é de grande utilidade.
Ora vamos lá à Física:
– a excentricidade a existir terá de ser muito baixa, porque de outra forma seria impossível conter a arma depois do disparo;
– o efeito de rotação da arma – que será muito pequena por estar intimamente ligada com a excentricidade – que tu levantas só tem influência sobre a trajectória da bala enquanto que esta ainda se encontra dentro do cano da arma (o que corresponde a 0.005 segundos para uma arma com um cano de 1 metro e uma bala disparada à velocidade de 200 metros por segundo). Para além disso a bala tem folga dentro do cano, por isso não é líquido que o cano contacte com a bala e lhe altere a trajectória;
- o facto de ser linear pode querer dizer recta, porque a teoria é aplicada apenas a um alinhamento recto. Caso quisesses aplicar ao caso da granada também se aplicaria a teoria do momento linear, mas desta vez para 3 alinhamentos ortogonais quaisquer (os necessários para definir o espaço). Mas ainda assim todos eles rectos.
De volta à realidade, o facto de eu conhecer o indívíduo em questão e tu não faz com que eu te possa garantir com toda a certeza que ele estava a apontar para os cabos eléctricos. Por favor acredita em mim. Quanto mais não seja pela amizade que me tens.
Comentário por pistonczar — Janeiro 4, 2008 @ 8:21 pm
Boa tarde,
Eu só pretendi esclarecer um ponto que na minha opinião não estava rigorosamente abordado do ponto de vista da Mecânica de um sistema de partículas. Sobre a realidade nem coloco em causa a tua versão, até porq.
Esperando que possas chegar às 10.000 visitas rapidamente e depois às 100.000 e finalmente às 1.000.000 desejos de um bom sucesso neste blogue.
Cumprimentos,
Um leitor não muito inteligente
Comentário por Leitor — Janeiro 5, 2008 @ 4:05 pm
Boa tarde,
Eu só pretendi esclarecer um ponto que na minha opinião não estava rigorosamente abordado do ponto de vista da Mecânica de um sistema de partículas. Sobre a realidade nem coloco em causa a tua versão, até porque vivo num local com semelhantes celebridades.
Esperando que possas chegar às 10.000 visitas rapidamente e depois às 100.000 e finalmente às 1.000.000 desejos de um bom sucesso neste blogue.
Cumprimentos,
Um leitor não muito inteligente
Comentário por Leitor — Janeiro 5, 2008 @ 4:07 pm
A minha intenção era meramente estética, apenas queria embelezar o meu comentário com alguma física .
Agradeço a aula de física, e a falta de precisão do meu comentário “físico” deve-se não ao facto de ter estado desatento ás aulas, mas sim ao facto de apenas ter tido 1 ano de física na escola secundária de albergaria a velha.
Comentário por Calisto — Janeiro 7, 2008 @ 1:57 am