Ao passar por este cão lembrei-me de Alexandre O’Neill. Não que eu ache que ele próprio é um cão, mas sim um interessante poema escrito por seu punho. Este poema vai mais ou menos assim:
CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Por esta altura estará o leitor a questionar a injustiça patente neste post. A injustiça maior é que eu poderia muito bem ter guardado para mim este desinteressante pensamento para mim e não o fiz. Para além disso, eu hoje trabalhei 10 horas e este cão passou todo este tempo a dormitar sob um amigável sol de Novembro. E ainda dizem que os humanos são a única forma de vida inteligente na Terra. Eu tenho dúvidas. No mínimo tenho dúvidas.





